OPOSIÇÕES POLARES

Na década de 1990 surge a série Oposições Polares, nas quais trabalho com sobreposições e justaposições de matrizes e cores, onde os cheios afirmam os vazios e vice-versa. Nessas gravuras, manifestam-se, simbolicamente, o feminino e o masculino, nas formas ovais, na circularidade das linhas, nas pontas e flechas, no pulsar dos roxos velados e vermelhos incisivos. Os trabalhos são denominados de: Pulsações, Passagens, Em busca do centro, Verticalização, Objetens.
 

Processo

Nestas gravuras, a impressão faz parte da construção da imagem: o gravar e o imprimir são simultâneos e sequenciais conferindo realidade às polaridades opostas das imagens.

Reflexões sobre a sérieOposições polares”

Na série Opsições Polares, investigo um processo mais “direto”. Abandono o rigor dos registros precisos para trabalhar com as permutações das matrizes moduladas, impressas em sobreposições de cores. Estabeleço limites de cores, (1 vermelho quente, 1 vermelho frio e 1 roxo) mas utilizo um número ilimitado de matrizes para construir uma imagem. Em trabalhos anteriores, a matriz tinha a função de reproduzir a imagem repetidas vezes. Busco a duplicidade da matriz e não a sua multiplicidade. Contudo, a técnica não é improvisação, mas pesquisa plástica.  O gravar não é mera incisão na madeira e preparação da matriz, da mesma forma que o imprimir não é uma estampagem mecânica.  As matrizes moduladas não são submetidas a racionalidade de um desenho, são mais intuitivas. São construídas a partir de inquietações relacionadas com as oposições polares internas associadas ao meu universo imaginário.

Nestas gravuras, a impressão faz parte da construção da imagem: o gravar e o imprimir são simultâneos e sequenciais conferindo realidade às polaridades opostas das imagens. Me questiono: são as matrizes gravadas ou são as cores que elaboram e estruturam a imagem? As imagens, são estruturadas a partir de limites entre cores quentes e frias, as quais são desdobradas em densidades e transparências e as matrizes moduladas, recortadas em formatos diversos, revelam oposições polares, desde a sua concepção. Os módulos, depois de impressos, revelam a síntese de um percurso feito de incisões e reentrâncias gravadas. Assim penetro em novas fronteiras, captando nas matérias, suas epidermes, propriedades e superfícies.  Percebo que a madeira da matriz já não é mais a madeira da árvore, assim como a cor, não é mais a tinta da lata, e o papel, não é apenas o suporte receptor da imagem.

O primeiro gesto gravado sobre a matriz e a sua impressão sobre o papel, determina os movimentos seguintes da construção da imagem. As matrizes e as cores são impressas em sobreposições, ao mesmo tempo são repetidas tantas vezes quantas forem necessárias, até que o ciclo se conclua, transformando-se sempre em novas possibilidades de gerar significações simbólicas. É quando surge a primeira gravura que denominei de Pulsações I. Quando a realizei, surgiu uma grande oval vazia no centro. Este vazio, me causou um grande impacto! O que poderia significar?  É semente? É útero? É concha? É feminino? É masculino? Ou seria tudo isto? A partir desta gravura, surgem todas as outras…

Uma imagem gravada não é o gesto positivo de um pincel, mas a concentração de um processo no qual se entrecruzam a mão, o gesto, o corte e o ser e, neste caso, também a cor. O vermelho considerado símbolo de vida, possui poder, brilho, intensidade e também a dualidade: de um lado, externo, masculino, incita e seduz e de outro, interno, feminino, detém o limite da vida, é quando inverte a sua polaridade. Quando o vermelho afirma sua plena cromaticidade, se define espacialmente nos direcionamentos verticais, com uma vibração centralizada, configurando o princípio masculino (Yang), e invade o espaço através das pontas e retas. Em outras imagens, age interiormente, num movimento circular, dissipando-se nas tonalidades e nas curvas, revelando o feminino (Yin). Também os roxos e os violetas possuem qualificações duais: o escuro é relacionado ao velado, ao interno, em outros momentos, suscitam passagens silenciosas.

A série Oposições Polares totaliza um ciclo para mim: o ovo, a semente, concha-vulva-útero, as passagens (o dentro e o fora), a busca do centro (sagrado), verticalização (a afirmação) e objetens, síntese entre o sagrado e o profano. Desdobra-se em 5 etapas:

  1. Pulsações – nascem simbolicamente estruturas femininas, são as conchas-vulvas, nas suas formas ovais – Estas formas ovais aparecerem configuradas entre espaços cheios e vazios, sinalizando o movimento entre certezas e incertezas, do caos e da ordem.
  2. Passagens – coexistem o movimento gestual das manchas e a impressão das matrizes/ o fluido e rígido – São as conchas-úteros- internos, ritmos circulares, e ainda entrelaçando-se simultaneamente o dentro e o fora, o circular e o vertical.
  3. Em busca do centro – há um caminhar pelo labirinto, onde durante o trajeto persigo a trilha em busca da entrada ou da saída. É o desejo profundo de visualizar o próprio centro, não o geométrico, mas o sagrado. Manifestam-se as dualidades do sim e do não, entre as horizontais e verticais, e, no momento em que são reconhecidas, reecontram-se novas totalidades.
  4. Verticalização – a vertical já se insinuava entre as curvas e extensões dos vermelhos das imagens anteriores. A partir destas gravuras, a vertical também se afirma espacialmente e, agora ocorre a inversão: são as curvas que se insinuam entre as verticais. Também as matrizes possuem um formato maior, já não uso tantas matrizes-fragmentos. A imagem de Verticalização III, causou-me o mesmo impacto que a oval vazia de Pulsações I. Aqui não é um vazio, mas um cheio, resultando da justaposição e sobreposição das cores. É um vermelho incisivo, onde uma flecha aponta ora para cima, ora para baixo.
  1. Objetens – estas imagens me remetem analogias simbólicas do sagrado e do profano, objetos do cotidiano primitivo, na forma de remos, lanças, totens. Anunciam uma nova trilha – presentes nos rituais – nas instalações representam as passagens.

 

Assim, neste fazer e desfazer conceitos a partir de um centro descentrado, as normas e as regras são questionadas. Os limites propostos não significaram fronteiras rígidas, mas ao contrário, permitiram a elasticidade dos contornos, mas sem destruí-los, preservando a identidade das matérias envolvidas no percurso.

Bachelard, no seu livro O Direito de sonhar, 1994, reflete sobre o comprometimento que envolve o processo de criação ao se trabalhar com gravura.  Para o autor, a gravura é a arte entre todas que não se pode enganar, pois ao ser atacada a matéria, isto é a matriz, nela permanece a ação da mão. É o momento em que começa a competição entre a matéria negra e a matéria branca, entre o sim e o não, entre a luz e a cor. Para se fazer uma gravura, vive-se a dialética entre a coesão e adesão entre duas matérias, eu diria três: matriz, tinta e papel.